» A síndrome de burnout e a saúde do educador Por Valéria Resende de Teixeira.
Neste primeiro de maio, data comemorativa de mais um dia do trabalhador, cabe refletir sobre a saúde emocional do professor e o estresse da profissão docente, resultado do contado direto com os agentes sociais envolvidos no processo educativo, e as condições materiais de trabalho.
A mudança social no mundo do trabalho – do artesanato a manufatura, uma das características da Revolução Industrial e a consequente submissão do trabalhador expropriado ou semi-expropriado dos meios de produção, a jornadas de trabalho cada vez maiores, levou-os a impossibilidade de assumir a educação dos filhos. Para o educador morávio João Amós Comenius, tendo-se multiplicado tanto os homens como os afazeres humanos, são raros os pais que, ou saibam, ou possam, ou pelas muitas ocupações, tenham tempo suficiente para se dedicarem à educação de seus filhos.
Dessa incapacidade, surgiram ideias da criação de uma instituição social, capaz de assumir as funções educacionais - a escola. Para o pesquisador da História da Educação Gilberto Luiz Alves, coube a Comenius, o mérito de conceber a escola moderna, pensada como uma oficina de homens. O trabalho no interior da escola seria equiparado às manufaturas, onde as operações distintas seriam controladas por plano prévio e intencional que as articulava, com o objetivo de produzir economia de tempo e recursos.
A proposta da escola para todos, de Comenius, tinha no condicionante econômico, o comprometimento de sua expansão. O barateamento dos custos dessa nova instituição era condição a ser perseguida visando sua universalização. Caso persistissem os altos custos, promoveria a exclusão de segmentos sociais, selecionando uma clientela que pudesse arcar com seus custos. A objetivação e simplificação do trabalho didático, semelhante ao acontecido na produção manufatureira com a diminuição dos custos de produção, permitiram o barateamento da formação do professor e dos serviços escolares.
O barateamento visando escola para todos, e a especialização do trabalho, semelhante ao ocorrido na produção manufatureira, aplicada à escola, com a simplificação do fazer, fez surgir um novo instrumento de trabalho do professor – o manual didático.
A escola, instituição capaz de, complementarmente, assumir a educação dos filhos da classe trabalhadora, o manual didático como instrumento de barateamento da oferta do ensino, e o antigo preceptor, agora na condição de professor com saberes distintos, contribuíram para o surgimento da escola moderna, tal como a conhecemos.
Dentre os agentes sociais envolvidos no processo educativo, o texto em tela, lança olhares sobre o professor, e a síndrome de burnout, responsável pelo estresse, alienação, desumanização, apatia e aposentadoria precoce de muitos educadores.
Para a psicóloga Mary Sandra Carlotto, doutora em Psicologia Social pela Universidade de Santiago de Compostela, no exercício profissional da atividade docente encontram-se presentes diversos estressores psicossociais, alguns relacionados à natureza de suas funções, outros relacionados ao contexto institucional e social onde estas são exercidas. Estes estressores, se persistentes, podem levar à síndrome de burnout. Este estresse pode ser resultado das condições de trabalho, da constante e repetida pressão emocional, e o envolvimento prolongado com pessoas no ambiente educacional, afetando e interferindo nos objetivos pedagógicos.
Burnout, também conhecido como síndrome do esgotamento profissional, é resultado da exagerada dedicação profissional, do desejo de ser melhor, a medição da auto-estima pela produtividade e capacidade de realizar tarefas, transformando-se em um profissional obstinado e compulsivo. Um dos sintomas do burnout é a desumanização. Atinge diretamente o aluno, os colegas de trabalho, amigos e familiares, atitudes grosseiras e negativas, caracterizam esses sintomas. Outros sintomas são: dores de cabeça, tontura, oscilações de humor, distúrbios do sono, dificuldades de concentração, problemas digestivos, e outros.
Para a educadora mineira Valéria Resende Teixeira, quando o professor se depara com a falta de reconhecimento de seu trabalho, e com os resultados pouco animadores, tende a entrar em processo de defesa, não se envolvendo mais emocionalmente com sua prática docente. O professor já não consegue mais se entusiasmar com o que ele próprio ensina, já não encanta mais seus alunos, sejam estes crianças, jovens ou adultos. A indisciplina cresce: quando os alunos perdem o interesse pelas aulas, eles buscam na indisciplina uma forma de manifestar sua insatisfação. O professor na tentativa de controlar essa situação, chega a fazer uso de um autoritarismo sem sentido. A impossibilidade de realizar os seus sonhos desmonta o professor, quando ele se sente impossibilitado de fazer o que deveria, surge, então, um conflito, cuja dinâmica permite a instalação do burnout.
Como se pode ver, o burnout de professores relaciona-se estreitamente com as condições desmotivadoras no trabalho.
Fazer deste primeiro de maio, uma data de resistência contra o descaso que vive a educação brasileira, é um primeiro passo na luta contra a síndrome de burnout.
Fonte: www.perolanews.com.brr